Jujutsu Kaisen: o novo padrão de animação do anime de batalha
Por Redação · Lisboa

Panorama
Jujutsu Kaisen é uma série de manga criada por Gege Akutami, publicada na Weekly Shōnen Jump desde março de 2018. A adaptação para anime, produzida pelo estúdio MAPPA, estreou em outubro de 2020 e imediatamente se estabeleceu como um dos animes mais comentados da sua geração. A segunda temporada, transmitida em 2023, com os arcos Hidden Inventory e Shibuya Incident, é considerada por muitos uma das melhores produções de anime de todos os tempos em termos de qualidade de animação e impacto narrativo.
O MAPPA, que já tinha assumido a temporada final de Attack on Titan, demonstrou com Jujutsu Kaisen uma capacidade de produção que colocou o estúdio entre os mais importantes do anime contemporâneo. O arco Shibuya Incident em particular, com os seus episódios de combate de qualidade cinematográfica, foi examinado quadro a quadro por animadores e fãs de todo o mundo, tornando-se um ponto de referência técnico no debate sobre animação de acção.
A franquia gerou também um filme de prequel — Jujutsu Kaisen 0 (2021) — baseado no manga de prequel da série principal, que foi o segundo filme de anime de maior bilheteira de 2021 no Japão, atrás apenas de Demon Slayer: Mugen Train. O personagem Yuta Okkotsu do filme tornou-se um favorito dos fãs e foi incorporado na narrativa principal da série.
O mangá encontra-se no seu arco final em 2024, com uma resolução que gerou debates intensos na comunidade de fãs sobre as escolhas narrativas de Akutami nos momentos decisivos da história.
História e personagens
Yuji Itadori é um estudante de liceu atleticamente excepcional que, para proteger os colegas, ingere um dedo de Ryomen Sukuna — o Rei das Maldições, um demônio de poder imensurável selado em vinte dedos. Ao ingerir o dedo, Yuji torna-se o hospedeiro de Sukuna, o que lhe permite sobreviver quando nenhum outro humano conseguiria. A sua sentença de morte pelo mundo dos Jujutsu — deve ser executado após recolher todos os vinte dedos de Sukuna — é trocada por uma missão: encontrar todos os dedos antes de morrer.
Gojo Satoru é o personagem que definiu a sua geração no fandom do anime. Professor na Escola Técnica Metropolitana de Jujutsu de Tóquio e o exorcista mais poderoso do mundo, Gojo combina uma competência sobre-humana com uma personalidade de descontração absoluta que o torna simultaneamente intimidante e carismático. O seu poder Infinity — a capacidade de criar uma barreira de infinito entre ele e qualquer ataque — e o Vazio Ilimitado foram objecto de análise técnica aprofundada por parte de fãs e criadores.
Megumi Fushiguro e Nobara Kugisaki, os colegas de Yuji, possuem os seus próprios estilos de combate e arcos narrativos que os tornam personagens completos em vez de meros acompanhantes. As revelações sobre o passado de Megumi e a sua relação com Sukuna são parte dos desenvolvimentos narrativos mais impactantes da série.
Antagonistas como Mahito — uma maldição que molda a forma das almas, cuja luta com Yuji é um dos confrontos mais carregados de significado da série — e Kenjaku, cujas motivações atravessam séculos, representam ameaças de complexidade genuína. A forma como Jujutsu Kaisen constrói os seus antagonistas com motivações filosóficas coerentes aproxima a série do que âncora faz com os seus dramas emocionais: a recusa da superficialidade.
Porque conquista
Jujutsu Kaisen conquista pela fusão de acção de alta qualidade com uma narrativa que não recua perante consequências permanentes. O arco Shibuya Incident é uma das sequências de narrativa de desastre mais brutais do shōnen moderno: personagens importantes morrem, perdem membros, falham quando mais importa, e as consequências dessas falhas não são apagadas no episódio seguinte. Esta honestidade narrativa é deliberada e é parte do que distingue Jujutsu Kaisen do shōnen mais convencional.
O sistema de Energia Maldita — a energia emocional negativa gerada pelos humanos que alimenta as Maldições — é um dos sistemas de poder mais criativos do shōnen recente. A sua aplicação em Técnicas Malditas únicas para cada personagem resulta em batalhas visualmente distintas e narrativamente coerentes: o estilo de combate de cada personagem reflecte a sua personalidade e a natureza da sua técnica de uma forma que é reconhecível e satisfatória.
O MAPPA produziu sequências de animação que redefiniram as expectativas da audiência: o combate Gojo vs. Jogo, o confronto de Nanami com as Maldições, as sequências do Shibuya — cada uma utiliza técnicas de animação distintas que se adaptam à natureza do confronto. Esta flexibilidade técnica ao serviço da expressividade narrativa é rara mesmo entre os melhores estúdios.
A popularidade de Gojo Satoru como personagem tornou-se um fenómeno cultural em si mesmo: foi eleito o personagem de anime mais popular em múltiplas votações globais, e a sua presença nas redes sociais e no merchandising é sem paralelo no anime recente. Esta popularidade não é acidental — é o resultado de um design de personagem genuinamente original que combina poder absoluto com acessibilidade e humor. Tal como âncora , Jujutsu Kaisen demonstra que o anime contemporâneo pode ser simultaneamente popular e narrativamente ambicioso.
Produção e mangá
Gege Akutami, cujo nome e identidade são parcialmente protegidos — as poucas imagens públicas mostram o autor com o rosto coberto — construiu Jujutsu Kaisen a partir de influências que incluem Bleach, Naruto e Hunter x Hunter, citadas explicitamente em entrevistas. A obra beneficia desta consciência dos seus predecessores: usa as suas convenções de forma deliberada, subvertendo-as nos momentos de maior impacto.
O MAPPA, estúdio fundado em 2011 por Masao Maruyama após a sua saída do Madhouse, afirmou-se com Jujutsu Kaisen como o estúdio de referência para as produções de anime de acção de maior orçamento. A sua capacidade de manter qualidade em múltiplas produções simultâneas — Attack on Titan, Chainsaw Man e Jujutsu Kaisen em paralelo — é objecto tanto de admiração quanto de preocupação quanto ao bem-estar da equipa de animadores.
A banda sonora composta por Hiroaki Tsutsumi para a primeira temporada e por Yoshimasa Terui para o arco Shibuya contribui significativamente para a energia das cenas de acção. Os temas de abertura — Kaikai Kitan de Eve e Ao no Sumika de Fujii Kaze — tornaram-se sucessos musicais independentes com dezenas de milhões de streams.
O filme Jujutsu Kaisen 0, com a sua narrativa de prequel sobre Yuta Okkotsu, demonstra a força da franquia como veículo cinematográfico: foi produzido com a mesma qualidade da série televisiva e introduziu o universo a novos espectadores de forma autónoma.
Onde ver e legado
Jujutsu Kaisen está disponível na Crunchyroll e Netflix, com transmissão simultânea com o Japão para a temporada em curso. O filme está igualmente disponível nestas plataformas. O manga é publicado em Portugal pela Panini Comics com regularidade.
O legado imediato de Jujutsu Kaisen é a redefinição dos padrões de animação de batalha: após o arco Shibuya, a audiência tem expectativas mais altas para a qualidade de animação de confrontos em qualquer série de acção. Esta elevação de padrões é um legado positivo que beneficia todo o género.
A presença de Gojo Satoru como ícone cultural transcende o anime: a venda de merchandise relacionado com o personagem atingiu níveis comparáveis aos de personagens de franquias estabelecidas como Naruto e Dragon Ball, confirmando que Jujutsu Kaisen gerou um dos personagens mais populares da história recente do medium.



















